sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma casa no meio do nada






De repente o tempo pareceu passar mais lentamente. Não, na verdade parecia retroceder; o simples fato de pisar naquele chão me fez voltar anos, era como se as lembranças da minha infância fossem imagens se movendo numa grande tela de cinema. Apesar de consideráveis anos terem transcorrido desde que deu as costas aquele lugar, ele permanecia praticamente inalterado. Uma casa no meio do nada, era como costumávamos nos referir aquela construção de tijolo cru, paredes pintadas de branco, janelas marrons, rodeada por árvores – algumas eram frutíferas, outras eram excelentes para a criança que um dia eu fui, subir e balançar-se nos galhos, mesmo sob os gritos de protesto da mãe.
O som de minhas botas pisando no cascalho reverberava, enquanto eu caminhava pela pequena alameda, ao redor da qual o mato crescia; flores silvestres nasceram ali, dando a impressão de um jardim branco rodeando aquele pequeno chalé; o vento sacudia a copa das árvores, um pássaro cantava distante, senti meus olhos úmidos. Não estava exatamente triste, mas aquele sentimento de nostalgia me cobria de angustia; lembrando da menina de longas cabelos pretos presos em duas tranças, correndo sorridente porta à fora, sentindo o calor do sol batendo em seu rosto, suas bochechas gorduchas e rosadas, colocando as mãos na terra para fazer “bolo de areia”. Um dia a vida foi fácil para aquela garota, mas então ela cresceu, e ir embora daquela casa sem olhar para trás foi apenas a primeira de muitas decisões difíceis que cruzaram seu caminho.
Não há arrependimentos; eu sabia o que tinha que fazer, de repente aquela casa onde cresci e vivi os melhores momentos da infância ficou pequena para todos os sonhos que tinha, mas eu estava errada quando dizia que não era uma árvore, que não tinha raízes em lugar nenhum; estar de voltar, lembrar daquela criança que um dia fui, e saber que existe muito dela na adulta que me tornei, me fez entender que não importa quanto tempo passe, minhas memórias continuarão enraizadas naquele lugar, naquela casa, mesmo quando a ação do tempo varrer para longe aquelas paredes, quando as árvores forem derrubadas e em seu lugar construídos prédios ou estradas, ela continuará existindo, nas minhas lembranças, e são para elas que eu voltarei de vez em quando, para lembrar da felicidade que um dia tive.

Nota: Texto para a pauta do BK Fotografia #04

5 comentários:

Quim Buckland disse...

Adorei o texto... Bem detalhista, profundo e arrebatador.

Thay disse...

Que texto bonito! Me identifiquei com alguma coisa dele, acho que o voltar pra alguma casa da infância. Isso sempre acontece quando visito as minhas avós: mesmo que uma delas não more mais na casa que eu frequentava com criança, a atmosfera continua a mesma e a nostalgia ataca com força. Beijo!

del disse...

Eu fiquei tãããão sem ideia pra essa pauta! Mas você escreveu um texto tão lindo! Tá de parabéns :D anda melhorando, e muito, na escrita!

Vanessa disse...

Que bonito! Eu me mudei muitas vezes, então entendo bem que as memórias ficam enraizadas nos lugares de forma especial!

Aline Neves disse...

Eu não pensei no quanto me faria falta ficar fora desse mundo de blog! Já faz um tempão que eu não passava por aqui,bateu saudade. Leila seu blog está cada vez mais lindo. Parabéns!!

Beijo.